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Apresentação do livro “Conta lá, Avó!” enche auditório de Ponte da Barca e celebra património imaterial do concelho
O Auditório Municipal de Ponte da Barca encheu na tarde do passado domingo, de público e de histórias, para a apresentação do livro “Conta lá, Avó!”, uma obra que nasce da escuta atenta às gerações mais velhas e transforma memórias em património imaterial vivo, preservado através da palavra e da experiência de vida.
Na sala, sentavam-se alguns dos protagonistas dessas mesmas histórias, os entrevistados, lado a lado com alguns dos que tornaram possível o projeto: quem recolheu, quem organizou, quem editou e quem deu forma gráfica a um trabalho feito de afetos e rigor. Entre os presentes estiveram também o Presidente da Câmara Municipal, Augusto Marinho, e a Vereadora da Cultura, Rosa Arezes.
A obra tem a assinatura de um trabalho coletivo, com compilação do professor Luís Arezes, cujo conhecimento aprofundado da história e das tradições locais foi determinante para dar coerência e rigor a um conjunto de testemunhos que atravessa freguesias, gerações e vivências. Para além da recolha e organização das narrativas, o trabalho integra ainda um enquadramento histórico que contextualiza cada um dos testemunhos apresentados, permitindo situá-los no tempo e compreender melhor os seus enquadramentos sociais, culturais e económicos, reforçando assim a dimensão documental e patrimonial da obra. Além de registar, o livro escutou. Além de escrever, preservou.
E é nesse registo que as histórias começam a ganhar vida.
De Ponte da Barca, Conceição Silva recorda um episódio que parece suspenso entre o sagrado e o simbólico: um batizado realizado à meia-noite, na Ponte Medieval, com o rio Lima como cenário e a fé como moldura de uma memória que resiste ao tempo.
José Braga, percorre décadas de vida ligadas à antiga Central Hidroelétrica de Paradamonte, de onde é natural e onde trabalhou mais de vinte anos.
De Vila Chã de São João, Manuel Antunes dá voz à Rota do Contrabando, lembrando um percurso iniciado na adolescência, aos 14 anos, onde a juventude convivia com a dureza de um tempo de fronteira, necessidade e sobrevivência.
Em São Martinho de Crasto, Maria Barbosa preserva a memória do “Amentar às Almas”, tradição cantada que continua a unir comunidade, fé e identidade, atravessando gerações pela oralidade.
De Bravães, Celeste Silva abre a janela da infância e da vida antiga da freguesia, onde também ecoa o “Amentar às Almas”, vivido como expressão profunda de espiritualidade e pertença comunitária.
As memórias do Barral, em Vila Chã (São João), surgem em várias vozes: Rosa Gonçalves, Carolina do Souto, Maria Gomes, Rosa Reis e Maria Branco, que evocam as aparições de Nossa Senhora da Paz e a força da tradição ligada à fé local.
Ainda no concelho, Alice Rocha fala dos Romeirinhos à Santinha da Barca, tradição de devoção profundamente ligada à identidade religiosa local.
De Oleiros, Maria de Fátima Costa recorda o fabrico de fogo, tradição centenária que marcou a freguesia e permanece como símbolo da sua história e identidade.
No conjunto, estas vozes constroem um retrato vivo de Ponte da Barca, um território feito de trabalho, fé, rituais, sentido de pertença e quotidiano. Um mosaico humano onde cada memória é uma peça essencial da identidade coletiva.
A apresentação foi moderada pelo jornalista da Rádio Barca, Nuno Cardoso, num diálogo próximo entre todos os intervenientes. A sessão contou ainda com momentos culturais protagonizados pelo Grupo de Gaitas e pelo Grupo de Cordofones da Câmara Municipal, pelas Cantadeiras de Crasto e de Bravães, e pela Academia de Música de Ponte da Barca.